terça-feira, 8 de maio de 2018

A luta segue dentro de momentos

A Bancada Azul é um lugar estranho. Na Bancada Azul, que outrora foi consagrada e popular, o tempo é de "guerra" fratricida. Uma "guerra" bem mais violenta e perigosa do que aquela que opõe o Clube de Futebol "Os Belenenses" à Codecity, e que apenas aproveita a quem capturou o futebol sénior masculino que foi, é e será do Clube.

A "guerra" na Bancada Azul é feita de antipatias pessoais muito mais do que de ideias. As refregas decorrem em torno de posições estáticas, de "trincheiras" ao pior estilo da guerra 1914-1918, e raramente resultam num ganho para o Clube e para aqueles que nelas participam.

O blogue que encerro (em definitivo) visava participar num debate diferente. Procurava reflectir sobre os assuntos retirando-lhes a carga negativa das antipatias pessoais erigidas ao longo dos anos. Procurava igualmente abranger os vários aspectos do dia-a-dia belenenses: a dimensão desportiva e a associativa, o futebol e as chamadas "modalidades", a história e a identidade que fomos perdendo.

O Belenenses que hoje sobrevive em cada um de nós está muito longe daquele que os meus bisavós viveram. E não me refiro apenas a resultados desportivos. No Belenenses de outrora cultivava-se o associativismo e a participação, exigia-se dignidade e independência face a outros poderes. O Belenenses histórico foi consagrado e popular, bairrista e anti-sistema. Hoje não sei bem o que é.

Os Belenenses de 2018 continuam a achar que o problema que têm em mãos foi criado por dirigentes e que apenas não se resolve por falta de vontade ou de competência de dirigentes. Parecem desconhecer que o conflito que temos em mãos não é entre a Direcção A ou B e a SAD, mas entre o Clube e a SAD, ou entre os belenenses e a empresa que capturou o futebol profissional belenenses.

Eu acredito no associativismo popular e sei que nesse contexto a palavra chave é co-responsabilidade. Um amigo distante mas que muito prezo, belenense como há poucos, costuma afirmar que o problema do Belenenses são os belenenses. E eu, que discordei sempre (caramba, que outros clubes sobreviveriam ao que andamos a passar há meio-século e em particular na última década?), vou-me rendendo às prosaicas evidências do quotidiano azul. Sobretudo porque os belenenses de hoje parecem pouco disponíveis para ser co-responsáveis nas decisões históricas que o contexto lhes exige. Faltam-nos tomates, como diria o Lú.

O momento não é de desistência, é de luta. E eu cá estarei para defender o que penso ser o melhor para o Belenenses associativo contra um Belenenses-empresa que vai na cabeça de muitos dos poucos associados azuis. Mas sem as ilusões que primeiro alimentei e que depois fui perdendo ao longo do tempo. O problema do Belenenses tem sido a morte do belenensismo que nos foi legado pelas gerações que viveram um Belenenses verdadeiramente grande (porque democrático, participado, ligado à comunidade) e não vejo com toda a franqueza vontade para o reabilitar nos seus traços gerais. Quem quiser apontar o dedo aos dirigentes que o faça, é livre. Mas erra o alvo. 

No Belenenses como noutros emblemas históricos sem a sorte dos protegidos, a dignidade associativa é relativizada face a outras formas de vivência clubística. Todavia, concedo que muito provavelmente sou eu quem está errado na sua forma de querer um Belenenses renascido e grande, com uma grandeza reconhecida com base em parâmetros e critérios que não são os escolhidos pelos nossos rivais históricos, e que apenas a eles servem.

A luta segue dentro de momentos, por outros meios. Este deixou de servir os interesses do Clube de Futebol "Os Belenenses".

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O silêncio da "Os Belenenses Futebol SAD"



A comunicação social tem noticiado entradas e saídas - de jogadores e treinadores - da estrutura da "Os Belenenses Futebol SAD". Destaca-se a notícia da saída do treinador-principal Domingos Paciência que, fazendo fé na comunicação social e em refisto fotográfico divulgado na imprensa, terá sido substituído por Silas. Todavia, a consulta dos canais oficiais de comunicação da SAD (página no Facebook e na plataforma Twitter) não permite confirmar boa parte das notícias divulgadas.

O silêncio da "Os Belenenses Futebol SAD" é ensurdecedor e contribui um pouco mais para o afastamento dos sócios e adeptos do Belenenses (os poucos que ainda acompanham o dia-a-dia da equipa da SAD) face aos assuntos da equipa profissional de futebol.

Na minha perspectiva de sócio e adepto 100% Belenenses é uma falta de respeito (mais uma) que não pode ser ignorada e que, pelo contrário, vem confirmar que os responsáveis da SAD não olham para os sócios e os adeptos do Belenenses como os primeiros interessados relativamente aos assuntos que dizem respeito à equipa que é, ainda hoje, o símbolo máximo do Belenenses aos olhos do país e do mundo desportivo.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"À Sombra de Gigantes"


Em Junho de 2017 fui contactado por um jornalista brasileiro - Leandro Vignoli - através da página do Facebook deste mesmo blogue. Na altura concordei em responder a cinco questões sobre o Belenenses e a sua situação, ainda sem saber bem a que se destinavam as respostas. Posteriormente, o Leandro esclareceu que se encontrava a preparar um livro sobre clubes históricos do futebol europeu actualmente percepcionados fora do estatuto de "grandes"; emblemas como o Espanhol, o Leyton Orient de Londres, o Union Berlin ou o 1860 Munique. Alguns meses depois percebi que a "entrevista" teria sido utilizada em "À sombra de gigantes: uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu".

Creio que o facto de um jornalista brasileiro ter escolhido o Belenenses como casa de uma "das mais famosas pequenas torcidas do futebo, europeu" é por si só um motivo de orgulho e reconhecimento do prestígio de que apesar de tudo ainda gozamos. Se o autor tivesse procurado conhecer melhor os adeptos de outros emblemas emergentes do futebol português estou certo de que, dada a actual situação associativa do Belenenses, não lhe poderiamos levar a mal... Acontece que não o fez e isso tem que ter um significado e uma razão.

Em "À sombra de gigantes" cabe ao nosso querido Belenenses o décimo capítulo da viagem. Leandro Vignoli chamou-lhe "Belém e só o Belém". Eu ainda não li o conteúdo mas depreendo que o título se relacione com uma especificidade de boa parte da nossa massa adepta face à generalidade dos clubes nossos concorrentes nas principais competições desportivas nacionais: os Belenenses são Belenenses e só Belenenses, sem "segundos clubes" nem preferências estarolas. Somos "Belém e só Belém", de mais ninguém.

Numa das minhas respostas a Leandro Vignoli tive oportunidade de enfatizar essa característica belenense. E não o fiz para amenizar a triste situação associativa do Clube. Se o referi é porque acredito mesmo que os Belenenses de hoje ainda preservem essa atitude de elementar higiene associativa, e que essa realidade pode muito bem ser o embrião de um futuro Belenenses refundado, reconstruído e reanimado.

O Belenenses permanece à sombra não de outros gigantes, mas do gigante adormecido que ainda é. Reconhecê-lo pode muito bem ser fundamental numa fase histórica da vida do Clube em que se exige coragem e visão.

Somos Belém e só do Belém.
Queremos renascer, inteiros, unos, num só Belenenses.
Não há outro caminho.



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Falar grosso (para inglês ver)


Diz-se que alguém fala "para inglês ver" quando aquele que protagoniza o discurso (geralmente inflamado) tem muito mais objectivos de forma do que de conteúdo. Foi o que se passou ontem - é o que se tem passado desde há muitos meses - com um conhecido responsável da "Os Belenenses Futebol SAD" após a desconcertante exibição da equipa da Codecity em mais um fraco resultado que deixa a equipa a escassos sete pontos do penúltimo classificado da Liga.

O responsável em questão tem-se desmultiplicado em declarações públicas, entrevistas e protagonismos vários, incluindo no chamado "G15", grupo de SAD's que até ao momento se notabilizou por reclamar uma maior participação na "indústria" e no "negócio do futebol", e por contradições insanáveis que aliás têm sido alvo de gozo por parte do estarolismo indígena (como aquela proposta do SCB sobre o fim dos empréstimos de jogadores, à qual se sucedeu o recúo de António Salvador relativamente à devolução de jogadores emprestados por clubes terceiros e a alinhar na sua equipa e, simultaneamente, o empréstimo por parte do SCB de Marko Bakic à "Os Belenenses Futebol SAD"...).

Ontem à noite o motivo da aparição pública do responsável da Codecity foi um erro de arbitragem - real e efectivo - que valeu ao Boavista o golo do empate aos 89 minutos do jogo (depois de há pouco mais de um mês ter referido publicamente que "para ultrapassar este momento era importante que não se criticasse árbitros"). E isto depois de uma segunda parte durante a qual a equipa da SAD jogou muito tempo nos últimos 30 metros do seu meio campo defensivo, sem soluções nem ideias para parar um Boavista fraquinho, com mais vontade do que capacidade, catapultado para o empate muito mais pelas erradas opções do treinador da equipa visitada do que pela influência da arbitragem.

Trata-se na minha perspectiva de uma fuga para a frente. Uma cortina de fumo para desviar atenções de problemas bem mais graves e assuntos bem mais relevantes no que respeita à vida e ao dia-a-dia do futebol profissional ligado ao Belenenses.

Fazendo fé no jornal Record, Rui Pedro Soares já arranjou uma justificação pífia para a mais do que provável incapacidade da equipa da SAD para chegar às competições europeias [1]. Por outro lado, temas bem mais relevantes do que um golo mal validado num jogo da Liga têm ficado sem o merecido esclarecimento. Refiro-me muito concretamente às denúncias de transferências de dinheiro entre a "Os Belenenses Futebol SAD" e o Benfica recentemente divulgadas como caso colateral ao ruivoso "escândalo dos emails".

O nome do Belenenses está na lama e os responsáveis da Codecity, pelo menos enquanto permanecerem no Restelo, têm a obrigação de zelar pela salvaguarda do prestígio de um emblema que, mesmo não sendo o seu, de certa forma representam. Isto, claro está, enquanto o Clube e os seus associados - que por mais de uma vez manifestaram em Assembleia Geral a sua vontade esmagadora de ver partir a Codecity - não encontrarem a solução para o bicudo problema que têm em mãos.

Notas:

[1] "Podem prejudicar-nos ao ponto de não irmos à Europa, mas que não lhes passe pela cabeça que nos atiram para a 2ª Divisão. Não contem com isso, porque não vamos"

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A esclarecedora entrevista de RPS


RPS deu uma entrevista de duas páginas ao jornal "A Bola". Primeira nota: o tempo de antena - ou o espaço na imprensa - dedicado a entrevistas de gente ligada à SAD neste período (recordo entrevistas a Freddy, Maurides, José Luís e até ao desvinculado Camará, que se referiu ao Belenenses e ao processo da sua saída, voltando a apontar o dedo aos sócios do Clube) é muitíssimo maior do que a quase inexistente voz do Clube nos media.

A entrevista de RPS esclarece muita coisa, sobretudo e paradoxalmente por via daquilo que recusa esclarecer.

Alguns exemplos:
  • RPS refere o passivo da SAD anterior à chegada da Codecity, enfatizando a sua importância e usando-o como elemento justificativo para a venda por parte do Clube da maior do capital social da SAD a uma empresa externa, mas na última resposta da entrevista recusa-se a revelar o passivo actual da SAD, preferindo referir que o activo é superior ao passivo e que o que actualmente importa é aumentar receitas. Será porque o passivo aumentou significativamente desde o início da operação da Codecity na SAD?
  • RPS contorna olimpicamente a questão sobre a disponibilidade da Codecity para assinar um novo "parassocial", assunto absolutamente chave para um eventual futuro entendimento (por alguns defendido) entre o Clube e a empresa que ainda detém a maioria do capital da SAD.
  • RPS contorna olimpicamente a questão do esvaziamento do Estádio do Restelo - 1223 espectadores no último jogo em casa para a Liga, frente ao Paços de Ferreira -, contorna o divórcio efectivo entre adeptos e sócios do Clube por um lado e a SAD por outro, preferindo referências risíveis à falta de estacionamento ou de conforto no Restelo.

De resto trata-se de uma entrevista redonda, sem ponta por onde se lhe pegue.

Um conjunto de lugares comuns e desejos grandiosos (como ganhar a Taça de Portugal, quando a equipa da SAD tem sido sucessivamente eliminada por clubes de escalões inferiores, ou participar na Liga dos Campeões, o que implica neste momento ser 1º ou 2º classificado da Liga, com o dobro dos "40 pontos" que são o objectivo actual) que mais não fazem do que esconder uma inacreditável pobreza de ideias e uma efectiva falta de ligação ao Belenenses, aos seus adeptos e aos seus associados.

De fora da entrevista ficaram algumas perguntas óbvias, mas que na verdade são hoje totalmente laterais no contexto de uma "indústria" de que também o jornal "A Bola" é parte: Como explica o afastamento do grupo mais activo e presente de sócios do Belenenses face à equipa profissional de futebol? Pode uma equipa profissional de futebol e uma SAD desenvolver a sua actividade sem o apoio dos sócios do Clube fundador? Porque razão a Codecity deu o dito por não dito, impossibilitando o direito de recompra que foi apresentado aos sócios em AG como uma condição do processo de compra-venda entre o Belenenses e o (suposto) investidor? Qual foi até ao momento o investimento efectivamente realizado pela Codecity na "Os Belenenses Futebol SAD"?

A entrevista de RPS é, do meu ponto de vista, absolutamente esclarecedora. E a principal conclusão é a seguinte: a Codecity encontrou na SAD do Belenenses - a SAD que foi, é e será património do Clube e dos seus associados - um veículo para o desenvolvimento de uma actividade empresarial que não tem no Belenenses nem nos belenenses a sua principal preocupação. Cada minuto passado por esta gente no Belenenses é um pedaço de viabilidade a menos no futuro do Belenenses.

sábado, 18 de novembro de 2017

Mariano Amaro (parte 2)



A segunda parte da série de artigos "A vida de Mariano Amaro contada por ele e escrita por Pitta Castelejo", publicada na revista Stadium entre o final de 1948 e o início de 1949, dedica-se à infância do capitão azul, iniciado para o futebol nas ruas do seu bairro, e depois atleta do Sporting Clube da Adiça e o Grupo Desportivo Adicense.

O tom revela uma enorme admiração do autor por Amaro, que aparece como uma figura quase idealizada. Em todo o caso é de sublinhar que o episódio do pontapé na mão na senhora idosa que assistia às partidas da rapaziada do bairro vem humanizar a figura noutras passagens quase santificada do pequeno Mariano.

Parte II
(Revista Stadium n. 313, 01.12.1948)

Vão percorridos trinta e quatro anos. No pitoresco bairro de Alfama, num prédio de linhas simples e de aparência modesta, vivia um casal feliz.

Naquele recanto de Lisboa, as almas compreendem-se, cimentam-se amizades e, no passado como no presente, todos se conhecem, todos se estimam e as várias famílias formam como que uma família única e numerosa.

As alegrias e as tristezas de uns são partilhadas pelos outros e a vida honesta e límpida é conhecida tão me pormenor nos lares alheios como se não houvessem paredes a separar os diversos agregados familiares.

É frequente à noite, quando o calor aperta, vermos sentados à porta das casos, homens, mulheres e crianças, numa identidade completa de sentimentos, revelando o seu estado de alma, numa confiança que é sintoma daquela ingenuidade própria do excelente coração do povo português.

Como raramente aquelas ruas apertadas são invadidas pelos automóveis, as crianças brincam descuidadamente na via pública, vigiads pelo olhar atento das mães que costuram aos degraus das portas.

No dia 7 de Agosto desse ano de 1914, houve um acontecimento festivo, que veio tornar mais alacre e mais festivo o ambiente que se desfruta em determinado lar.

Um novo ente rosado e robusto, nascera para a vida. Houve festa rija, alegria a rodos!

O filho do casal, estupfacto, não se apercebia como de improviso, lhe surgiu um irmão.

O tempo na sua marcha ritmada foi passando e o pequeno Mariano cresceu e passou por aquelas múltiplas fases que tocam a todas as crianças. Chegou, anos depois, a demonstrar a mesma surpresa que sentira o seu irmão mais velho, quando um novo manito veio aumentar a prole.

Teve traquinices que ora caíam no agrado dos pais e eram motivo de contentamento, ora eram punidas com uns açoites bem puxados, a lembrar que os meninos não devem cometer más acções.

Os três irmãos davam-se às mil maravilhas e formavam um grupo encantador que a própria vizinhança admirava e acarinhava.

Cedo, porém, se começou a revelar neles, aquela intuição nata, que com a passagem dos anos mais se radica e confirma, para preferirem a bola, a todas as demais brincadeiras próprias das crianças.

Os automóveis de folha, os cavalos de papelão e os soldadinhos de chumbo, eram modesto incentivo para os seus entretenimentos.

Como se uma vontade única imperasse naqueles três cérebros, os olhos brilhavam de aprazimento, as faces atingiam-se de uma coloração diferente da habitual, quando uma bola de borracha, polícroma, lhe caía ao alcance das mãos.

Não se fartavam de a ver rolar pelo sobrado da casa, de a pontapear no empedrado da rua!

António, Mariano e Álvaro, cresceram.

A "mania" pela bola subsistiu e cada um deles, sabia aproveitar todos os pretextos para se dedicar à sua "paixão" favorita, naqueles improvisados campos de futebol, que são as ruas dos nossos bairros mesmo centrais.

Para dar pontapés tudo lhes servia: bocados diminutos de madeira, caixas de fosforos, pedras pequenas, latas de graxa e finalmente, bolas de trapo, aquelas bolas que, ainda no presente, são o grande aliciante da rapaziada.

Que de clamores não houve naquela casa, ao verificarem-se os apreciáveis estragos que acusavam as biqueiras das botas!

O pequeno Mariano, irrequieto, buliçoso, vivo e endemoinhado era um autentico "terramoto". Não tinha descanso. Numa ânsia crescente de estar em contacto com a bola, aproveitava todas as ocasiões para, com a "malta" do sítio, realizar desafios intermináveis, em que as horas corriam céleres e o seu fim só era atingido pela brusca intervenção dos pais ou... da polícia.

Então era a debandada. Cada um fugia para seu lado, qual bando de pardais assustados. Mas nem o temor dos agentes da ordem, nem a severidade do castigo imposto pela família, travavam a tendência cada vez mais arreigada no espírito de Mariano, que com os olhos vivos, voltava novamente, passado o "mau tempo", a entregar-se à sua brincadeira predilecta.

Na Escola 10, sita na Costa do Castelo, recebeu Amaro os primeiros ensinamentos. Aí começou a sua formação espiritual, cedo se revelando em estudante cumpridor e ávido de saber.

Enfim... futebol com bola própria

Aos treze anos, Mariano ingressou no Sporting Clube da Adiça, onde já alinhava o seu irmão António o melhor e mais eficiente executante da equipa. Alvaro, ainda "pequenito" era a "mascote". Jogou equipado, com uma bola de cautchú e em terreno próprio; como era diferente!...

Aos domingos era certo, não falhava um jogo. A rapaziada da Adiça estava sempre em "forma" para defrontar as outras equipas do bairro. Mariano era dos mais entusiastas.

A sua compleição franzina, parecia mais robusta quando jogava, quando tinha a bola ao seu alcance. Ocupava o lugar de interior, fazendo indistintamente qualquer dos lados.

Aí se começou a revelar um "garoto" cheio de habilidade, fazendo-se notar pela facilidade com que dominava a bola, pela subtileza que imprimia às jogadasm pela aparente facilidade com que "burlava" a defesa contrária.

Três anos volvidos, vestiu a equipa do Grupo Desportivo Adicense, clube inscrito em terceiras categorias no Campeonato Promocionário da A.F.L.

As excelente qualidades, aperfeiçoaram-se no contacto com os elementos de maior valia não tendo o seu irmão mais novo ingressado nesse clube. O mais velho havia já abandonado a bola devido a uma doença óssea. Todavia, para que não fosse o único da família, um seu tio, também fazia parte da equipa, embora deva elucidar-se que já era jogador quando Amaro entrou.

Durante a semana, os jogos na rua continuavam e serviam de treino. Claro que, eram muito diferentes, mas, mesmo assim, não esfriava o entusiasmo; ao invés, redobrava.

Garotices... sem punição

Durante esses animados e ruidosos encontros entre o grupo do páteo e o da Adiça (Mariano pertencia ao primeiro, no Campo da Adiça, que era nem mais nem menos que a Calçada de S.João da Praça, verificaram-se dois episódios que pela sua infantilidade não resistimos à tentação de revelar.

Costumava assistir a estas "jogatanas", uma velhota matreira, que, com o ar mais cândido, sentada no degrau da porta, seguia a evolução dos rapazes e acompanhava atentamente a tranjetória da bola de trapos, que apanhava quando passava ao seu alcance, fazendo desta forma, com que o jogo acabasse decisivamente.

Uma bola confeccionada por Amaro, com todo o carinho, seguira certo dia, o caminho de tantas outras. Aborrecido com esta atitude, o "garoto" traquina resolveu pregar uma partida à velha e se bem o pensou, melhor o fez.

Após prévia combinação com o chefe dos "miudos" adversários começou o jogo, com a inevitável presença da fiel espectadora, que aguardava pacientemente o momento de intervir.

A certa altura, Mariano apossou-se da "trapeira", seguiu "driblando" todos os adversários que lhe surgiram pela frente e caminhou em direcção à velhota- Esta julgando a ocasião propícia, estendeu o braço e deitou mão à bola... que não conseguiu apanhar porque um valente pontapé, deixou essa mão contundida e a sua dona torcendo-se com dores.

A velha começou a gritar e a "malta" rapidamente dispersou, para evitar a polícia.

Pelo sim pelo não Mariano foi de abalada até ao Seixal, terra dos seus pais, onde se conservou, "em estágio" durante 15 dias...

Daí para o futuro, já os desafios não tiveram a presença daquela "simpática adepta".

Num outro encontro, quando a animação atingira o auge, é dado o sinal de alarme: Polícia.

De facto fora estabelecido um cerco à "miudagem" atrevida que actuava nas "barbas" da autoridade.

Era inevitável a debandada e Mariano foi dos primeiros a dar o exemplo, caminhando rapidamente para o rez de chão da sua casa, seguido por dois companheiros que não podiam "furar" o cerco.

Entraram os três de rompante pela casa dentro, seguido por um polícia, nos seus calcanhares.

(continua)



[imagens: Revista Stadium]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Bancada vazia




A consulta da página de estatísticas do site da Liga é de grande interesse, nela se espelhando a realidade associativa de muitos emblemas cujas equipas profissionais de futebol competem na principal competição do futebol nacional.

Três emblemas lá no topo, com um acumulado em torno dos 260 a 250 mil espectadores nos primeiros 5 e 6 jogos da temporada, um que se encontra a meio caminho, na casa dos 115 mil e depois uma lista de catorze figurantes que entre os 68 mil e os miseráveis 7 mil espectadores acumulados em cinco jornadas caseiras ilustram bem o desequilíbrio que graça no patamar mais elevado do antigo “jogo do povo”.


O Belenenses, que tem cinco jogos caseiros contabilizados (Marítimo, Vitória FC, Estoril, Vitória SC e Moreirense) vai pouco além dos 10.000 espectadores, o que representará assistências médias na casa das 2.000 almas por jornada no Restelo. É para já a pior percentagem média de ocupação dos Estádios da Liga, com 13,70%, longe dos 17,24% do Estoril, o clube com menos público.

As contas feitas antes das visitas dos clubes que mais adeptos visitantes tradicionalmente trazem ao Restelo (argumento muito caro às pessoas “da indústria” e a dirigentes que vêm nos referidos emblemas o “abono de família” dos seus cofres) permite-nos aliás perceber, sem assistências inflaccionadas por clubes visitantes, que a posição na tabela classificativa ocupada pela equipa que representa actualmente o Belenenses não tem sido motivo de maior aproximação de sócios e adeptos relativamente aos jogos disputados no Restelo.

Naturalmente que o problema do afastamento dos sócios e adeptos do Belenenses não é um exclusivo do futebol sénior nem uma realidade dos últimos quatro anos. Em todo o caso os números provam que não há qualquer efeito positivo por via da chegada ao Restelo da empresa detentora da maioria do capital social da SAD.

O Belém é um clube que, pela sua natureza e contexto histórico, cultural e geográfico, se encontra particularmente exposto aos efeitos dos aspectos mais nocivos do futebol-indústria. A sua revitalização passa por um corte com a ideologia do futebol moderno e pela sua afirmação como emblema resistente a um sistema que trucida clubes no altar dos interesses daqueles que simulando divergências partilham evidentemente interesses e perspectivas sobre a asfixia do desporto nacional.

Por outro lado, o Belenenses vive desde há muito um problema associativo que é do âmbito do Clube, ao qual sócios e dirigentes não são desde há muito capazes de dar resposta. Parece-me todavia óbvio que a Codecity tem contribuído – e de que forma!... – não apenas para o seu agravamento como também para a intensificação da desertificação do Restelo em dia de jogo.

Rua com a Codecity.
Refundação, já.

sábado, 11 de novembro de 2017

Presente!



Este "Bancada Azul" conheceu entre Abril e Maio de 2017 alguma animação. O projecto, que começou com outro nome e com outros objectivos (na sua génese era minha intenção transformá-lo numa género de revista online sobre história, cultura e actualidade belenenses, com artigos e reportagens de fundo), divergiu para um género de blogue pessoal que, a dado momento, me pareceu inútil e redundante.

Acontece que a realidade é dinâmica e que aquilo que ontem me parecia evidente já não tem esse valor inquestionável nos dias que passam.

O Belenenses vive o momento mais crítico dos seus 98 anos de história, exigindo luta, comprometimento, unidade associativa, arrojo e, claro está, profundo sentido crítico. O Belenenses precisa de gente, de um associativismo participativo, de mais democracia, de maior envolvimento com a comunidade. Na minha perspectiva só terá futuro rasgando com uma deriva "empresarial", que leva três ou quatro décadas, e que teve na constituição da sua SAD para o futebol profissional o momento decisivo.

É verdade que o Belenenses tem mais grupos na internet do que sócios nas bancadas do pavilhão (e essa é a ilustração mais nítida do problema associativo que se encontra na génese da situação em que nos encontramos). Mas parece-me hoje claro que não existe contradição alguma entre uma intervenção activa no "mundo digital" e um envolvimento presencial insubstituível. Veja-se o papel fundamental que o grupo #tweetpastel assumiu e assume desde há anos na defesa do Belenenses e do seu bom nome na rede social Twitter.

A "Bancada Azul" está de regresso.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Vida curta

Esta bancada azul teve vida curta, que acaba hoje. A razão é simples: um mês de blogue permitiu-me compreender que a era dos blogues azuis já passou e que insistir numa intervenção "digital" na tentativa de contribuir para algum tipo de engrandecimento do Belenenses é dar um passo em frente apenas para logo a seguir regressar dois atrás. O Belenenses não é uma tertúlia na internet e a internet pode muito bem ter sido um meio muito mais desagregador do que unificador dos Belenenses.

Para este peditório não dou mais e, como nota final, deixo o apelo a todos aqueles que por caso aqui vieram [ou vierem no futuro] parar: o momento é de bebedeira digital mas para somar alguma coisa ao objecto da nossa paixão é preciso sair do virtual e meter as mãos, os pés, a cabeça e a alma no mundo real. Estar lá, sempre que nos for possível.

A todos um grande abraço azul.
Rui Vasco Silva
Sócio 7795.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Insultos e ameaças



Há duas semanas atrás o país desportivo foi confrontado com notícias sobre insultas racistas e agressões a um jogador do Belenenses e à sua esposa grávida. O assunto foi amplamente divulgado e comentado nos media. Foi também motivo justificativo para uma conferência de imprensa na sede do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, momento durante o qual o SJPF informou que o caso seria levado "até às últimas consequências, quer junto das entidades desportivas, quer através das autoridades judiciais, para que se evitem mais casos destes".

É hoje evidente para todos - até porque existem imagens dos acontecimentos daquela noite no Restelo... - que não se registaram quaisquer tentativas de agressão, que ninguém tocou no jogador em causa e que a sua esposa [que então se encontrava grávida] nunca saiu de dentro da viatura no interior da qual se encontrava. E é por esse motivo que, depois de ameaçar levar o caso "até às últimas consequências", o caso parece ter morrido, verificadas que estão as inconsistências da versão a que jornais e televisões deram divulgação, que o SJPF confirmou e que nem a SAD do Belenenses nem o jogador em causa desmentiram, apesar de o poderem ter feito por inúmeras vezes desde o passado dia 30 de Abril.

De resto não tenho memória do SJPF ter questionado a entidade patronal do jogador supostamente ofendido e alvo de tentativa de agressão [mais a sua esposa grávida] sobre as medidas tomadas para proteger o atleta e a sua família [se disso houvesse efectivamente necessidade...]. Se de facto houvesse da parte dos adeptos do Belenenses qualquer intenção de ameaçar o atleta, essa intenção poderia ter sido facilmente consumada quando dias mais tarde cerca de sete dezenas de sócios do Clube entraram sem qualquer dificuldade no relvado principal do Restelo, tendo entrado pela porta principal da SAD à hora do treino da equipa sénior masculina...

Verifica-se entretanto que na ressaca de duas derrotas consecutivas para a Liga foi divulgada pelos media a informação de que após a chegada da comitiva do Sporting Clube de Portugal ao seu estádio [regressados de Santa Maria da Feira, no passado sábado] "os jogadores [...] foram insultados e receberam ameaças", tendo-se verificado danos nas viaturas de alguns jogadores, nomeadamente dos capitães de equipa Rui Patrício e William Carvalho [1], situação semelhante a outra registada durante a presente temporada, tendo como alvo jogadores do Benfica [2] e que não conheceu qualquer reacção "sindical".

Desta forma, e se o SJPF não esboçar qualquer reacção pública aos acontecimentos do passado sábado, é totalmente legítimo que não apenas os adeptos e associados do Belenenses como todos os adeptos e associados dos clubes não favorecidos do futebol profissional se questionem acerca das razões deste tratamento diferenciado por parte do Sindicato.

Notas:
[1] "Sporting: insultos e carros pontapeados em Alvalade", [Mais Futebol]
[2] "Autocarro do Benfica atacado à chegada ao Seixal" [Record]